Enquanto eu respiro, eu lembro. Enquanto eu lembro, eu curo.
Eu pari a vida, enquanto me despedia da vida.
Eu segurei minha filha com braços que tremiam de dor.
Eu fui mãe enquanto ainda era filha.
Eu fui apoio enquanto também desmoronava.
Hoje, eu não quero respostas.
Eu não procuro mais por explicações.
Hoje, eu só quero reconhecer que sobrevivi.
Sobrevivi ao que pensei que não suportaria.
Caminhei com o peito aberto mesmo sangrando.
Chorei em silêncio, e também gritei onde ninguém ouviu.
E ainda assim… aqui estou.
Com a memória da minha mãe viva em cada gesto de cuidado que ofereço.
Com o amor pelas minhas sobrinhas no jeito como acolho os pequenos que cruzam meu caminho.
Com a força das minhas irmãs, que também seguem, de pé, mesmo com o coração marcado para sempre.
O luto não some, ele transforma. E cada lágrima que eu derramei é ainda derramo por minha mãe, e minhas sobrinhas e até pelas partes de mim que se partiram naquele dia… são lágrimas sagradas. Carregam amor. Carregam memória. Carregam quem eu ainda sou…
O luto não acabou. Ele se transformou.
Em saudade que me visita.
Em esperança que se reconstrói.
Em fé que não entende, mas escolhe confiar.
E toda vez que olho para minha filha…
Eu sei: a vida venceu de novo.