
A violência contra crianças não é apenas aquela que deixa hematomas visíveis. Há agressões que se instalam no silêncio, na negligência, na ausência de empatia e no atropelo dos processos naturais da infância. Crescemos em uma sociedade que normalizou gritos, castigos físicos e ameaças como métodos “educativos”, ignorando o fato de que a criança, antes de tudo, é um ser humano com direito ao respeito e ao acolhimento.
Quantos de nós ouvimos que “apanhamos e estamos bem”? Mas será que estamos mesmo? Será que essa suposta resiliência não veio à custa de traumas silenciosos que carregamos sem perceber? A violência na infância pode não nos matar fisicamente, mas tem o poder de nos tornar adultos quebrados, inseguros e emocionalmente reprimidos.
O Desfralde e a Humanização do Cuidado
Um exemplo de como a violência se infiltra em pequenos momentos da infância é o desfralde.
Para muitos pais, essa fase se tornou um campo de batalha, onde a criança é forçada a atender prazos arbitrários, recebendo broncas ou punições por não controlar um processo biológico que exige maturação.
Já ouvi pais dizendo “não é possível que uma criança dessa idade ainda use fralda!” ou “não tem desculpa para fazer xixi na roupa!”.
Mas tem, e muitas.
Quando vivi esse processo com meus filhos, escolhi um caminho diferente: o do respeito ao tempo deles.
Sem pressa, sem punições, sem humilhação.
Porque o desfralde não é apenas sobre aprender a usar o banheiro, é sobre confiança.
A criança precisa sentir que pode errar, que pode experimentar, que pode contar com o adulto como guia, não como juiz. E isso vale para tudo na criação.
O Ciclo da Violência
O que começa com pequenas violências – puxar pelo braço, gritar, punir pelo desfralde ou por um prato não comido – pode se tornar um ciclo sem fim. Crianças aprendem pelo exemplo.
Se ensinamos que dor e medo são ferramentas legítimas para obter obediência, estamos formando adultos que farão o mesmo no futuro, seja com seus filhos, com seus parceiros ou consigo mesmos.
Precisamos, urgentemente, ressignificar a infância.
Criar sem violência não é ser permissivo, é ser justo.
É entender que a criança não é um adulto em miniatura, mas um ser em formação que precisa de afeto e paciência.
Se queremos um mundo menos violento, precisamos começar pela forma como tratamos nossas crianças.
É na infância que aprendemos o que é amor, e a forma como somos amados define a maneira como amaremos o mundo.